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Há algumas décadas,
profissionais da área de saúde notaram que
um "novo" tipo de paciente vinha se tornando cada vez mais
comum nos
hospitais, ambulatórios, clínicas para dependentes químicos
e consultórios de terapia.
Um paciente que não funcionava como os
típicos neuróticos, psicóticos ou psicopatas,
embora pudesse imitar uma dessas estruturas
ou até mesmo todas, alternadamente.
Os profissionais da saúde logo se deram conta que aqueles pacientes
eram
capazes de colocar em
xeque, simultaneamente,
os tradicionais referenciais teóricos, os estilos terapêuticos
e os sistemas de classificação.
E não tardou para que médicos, psicólogos, enfermeiros,
assistentes sociais
etc. percebessem que teriam pela frente
muitas e distintas dificuldades, desafios
e possibilidades de aprendizado.
Esse "novo" tipo de paciente
vem
sendo batizado com muitos nomes,
estudado
a partir das
mais variadas teorias e submetido às mais diversas terapêuticas.
Mas, apesar disso tudo, nunca parece acomodado
às várias roupagens que foram
e continuam sendo confeccionadas para ele...
Esta página contém
algumas informações sobre
esses singulares indivíduos,
que nomearemos, aqui, como estruturas borderlines ou fronteiriças.
apresentação
- atendimento
a familiares de pacientes borderlines - artigos
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1.
Por que alguns pacientes são chamados de borderlines?
O termo "borderline" foi utilizado, inicialmente, para designar
indivíduos que não teriam alcançado uma clara e sólida definição
estrutural (vários autores postularam, então, que os borderlines não podiam ser considerados nem como típicas estruturas neuróticas,
nem como autênticas estruturas psicóticas). O indivíduo teria ficado no
meio do caminho e, por isso, seria um borderline, um fronteiriço,
um semi/meio-neurótico ou um semi/meio-psicótico, ou, ainda, um
"perverso" (ou um quase-"perverso"). Felizmente, esse ponto de
vista foi redimensionado ao longo do tempo (embora o termo "borderline"
tenha se popularizado) e alguns pesquisadores começaram a
demonstrar (teórica e clinicamente) a existência de um "espaço"
específico, próprio, distinto de outras categorias: o território
borderline. Não uma
neurose malfeita, nem um disfarce para uma autêntica psicose, nem uma
psicopatia. Assim, ao menos para alguns psicopatologistas, o "território
borderline" passou a ser
reconhecido como uma "pátria", uma "estrutura", algo que possui uma "identidade". Pois, até então, era como se
uma série de indivíduos, falando uma língua bastante estranha porém não
de todo incompreensível, fossem ora confundidos com cidadãos de outros
domínios, ora tidos como habitantes das fronteiras, mas nunca dignos
de possuírem seu próprio "território".
Ao mesmo tempo alguns terapeutas perceberam o sério risco de o território
borderline transformar-se em um
"saco de gatos" que, por comodismo e falta de rigor na ação do
diagnóstico, passaria a
conter toda uma série de manifestações patológicas que pertencem,
claramente, a outras categorias.
Atualmente, as últimas
versões dos dois grandes sistemas classificatórios que se pretendem ateóricos
— o DSM-4 e a CID-10 — utilizam a expressão “transtorno de
personalidade borderline”
para designar um indivíduo que, anteriormente, fazia parte da “grande massa
borderline”. Em outras palavras, o termo
“borderline” foi, inicialmente, utilizado em um sentido amplo (com
conseqüentes imprecisões e até mesmo abusos) e, agora, tem sido
reservado a um tipo específico de distúrbio de conduta.
Complicado, não? Pois é. Parece que essas questões terminológicas e
conceituais são
tão complexas quanto os próprios pacientes fronteiriços.
E as dificuldades aumentam ainda mais, quando refletimos sobre os problemas
que decorrem de se tentar construir sistemas pretensamente ateóricos
que, embora se mostrem descritivamente mais precisos a cada versão,
pouco nos ajudam a entender a pessoa, o indivíduo borderline em sua ampla complexidade.
2)
Há alguma relação entre a cultura atual e o "comportamento borderline"?
Os psicopatologistas, desde Pinel, depararam-se com um inédito fenômeno:
a violência cega, abrupta, desconcertante em pacientes que não
apresentavam um quadro psicótico tradicional. Para aqueles alienistas não era
novidade presenciar manifestações de fúria assassina em
indivíduos considerados loucos. Mas como compreender tais manifestações
em pessoas que mantinham preservadas suas funções de consciência e
não apresentavam um dos principais sintomas da loucura, a desagregação progressiva
da função de pensamento?
Wilhelm Reich percebeu com clareza essa situação e descreveu-a em seu
brilhante estudo sobre os "caráteres
impulsivos". Esses indivíduos com altíssimo grau de impulsividade, descritos na década de 1920,
não eram exatamente idênticos aos pacientes que hoje denominamos como
"borderlines", mas Reich observou, naquelas pessoas,
vários fenômenos que
encontramos atualmente em nossos consultórios. Naquele grupo de
pacientes "as exigências
impulsivas eram preponderantemente difusas, não eram dirigidas a
objetos específicos e não estavam ligadas a situações
determinadas".
Pinel, Reich e vários outros estudiosos ensinam-nos, portanto, que o nascimento do conceito de "fronteiriço" é
indissociável da
percepção de uma específica violência. Essa violência é muito singular e deve ser diferenciada do sadismo neurótico,
do surto psicótico furioso e da raiva em sua expressão bioenergética.
Sem essa diferenciação, a estrutura psicopatológica "fronteiriço"
perde o sentido.
Por outro lado, o
conceito de "fronteiriço" está diretamente ligado à "crise de valores" ou "crise ética" do século
XX, e à simultânea pressão do contato profundo. A teoria
reichiana ensina que uma das principais funções do encouraçamento
humano é, justamente, impedir o contato profundo.
Em minha opinião, o
funcionamento fronteiriço está enraizado, em grande parte, nesse
contexto, ou seja: entre o incremento da pressão do contato profundo (um
verdadeiro "pico" de pressão) e as dificuldades da couraça
caractero-muscular de suportar esse "tranco".
A "crise de valores" já era
pressentida, no final do século XIX, por algumas pessoas mais
"antenadas", como, por exemplo, o filósofo alemão Friedrich
Nietzsche e o pintor Vassili Kandinsky. No livro O Espiritual na Arte Kandinsky falá-nos com muita clareza daquele "espírito da época" que,
nas primeiras décadas do século XX, encontra expressão em vários movimentos artísticos
(e, sem dúvida, na vida quotidiana...), balançando e questionando radicalmente os rígidos padrões morais-caracteriais: “Batalha dos sons,
equilíbrio perdido, princípios que desmoronam, rufar de tambores
inesperados, grandes perguntas, buscas aparentemente despropositadas,
impulsos aparentemente dilacerados e nostalgia, cadeias e ligações
rompidas, várias reagrupando-se em uma só, contrastes e contradições
— eis nossa harmonia”. [O filme "La Dolce Vita",
magistralmente dirigido por Fellini, é um ótimo material para se
analisar a passagem do funcionamento neurótico (linear/caracterial)
para o funcionamento fronteiriço (impulsividade +
depressividade + não-linearidade + vazio de contato)].
Fenomenologicamente pode-se dizer que o funcionamento borderline
apresenta um conjunto de características indissociáveis: a específica violência cega à que me referi acima, a
pressão do contato profundo, a patologia
do vazio, a terrível exigência consigo mesmo e as dificuldades do
encouraçamento caractero-muscular em lidar com essa situação.
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