ESTRUTURAS BORDERLINES

BREVE APRESENTAÇÃO

Há algumas décadas,  profissionais da área de saúde notaram que 
um "novo" tipo de paciente vinha se tornando cada vez mais 
comum nos hospitais, ambulatórios, clínicas para dependentes químicos 
e consultórios de terapia. 

Um paciente que não funcionava como os 
típicos neuróticos, psicóticos ou  psicopatas, 
embora pudesse imitar uma dessas estruturas 
ou até mesmo todas, alternadamente.

Os profissionais da saúde logo se deram conta que aqueles pacientes 
eram capazes de colocar em xeque, simultaneamente, 
os tradicionais referenciais teóricos, os estilos terapêuticos 
e os sistemas de classificação. 
E não tardou para que médicos, psicólogos, enfermeiros, 
assistentes sociais etc. percebessem que
teriam pela frente 
muitas e distintas dificuldades, desafios
e possibilidades de aprendizado.

Esse "novo" tipo de paciente 
vem sendo batizado com muitos nomes, estudado a partir das 
mais variadas teorias e submetido às mais diversas terapêuticas. 
Mas, apesar disso tudo, nunca parece acomodado 
às várias roupagens que foram e continuam sendo confeccionadas para ele...

Esta página contém algumas informações sobre esses singulares indivíduos,
que nomearemos, aqui, como estruturas borderlines ou fronteiriças. 

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ATENDIMENTO A FAMILIARES DE PACIENTES BORDERLINES

As pessoas que apresentam manifestações severas do assim chamado
"Transtorno de Personalidade Borderline" (TPB) requerem, em nossa opinião,
uma abordagem terapêutica de caráter multidisciplinar e multi-setorial.
O Programa  de Atendimento à Familiares de Pacientes Borderlines insere-se nesta perspectiva multidisciplinar. 

São dois os objetivos básicos do Programa:
a) Lidar com os específicos dilemas, angústias e incertezas experienciados por pais e/ou outros familiares de pacientes que apresentam quadros clínicos preocupantes de TPB.
b) Apresentar aos familiares, os fundamentos, a função, a importância e a metodologia do trabalho em rede com pacientes que manifestam um grave TPB.

Para mais informações, entre em contato por meio do
tel.: (11) 3875-5232 ou do e-mail abedani@org2.com.br

TEXTOS

BREVE HISTÓRIA DOS FRONTEIRIÇOS
O desenvolvimento histórico do conceito de "fronteiriço" ou borderline.



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CURSOS

CURSO INTENSIVO O PACIENTE BORDERLINE
O curso aborda as principais características do paciente borderline,
seu específico sistema defensivo e a necessidade de se reformular as 
estratégias terapêuticas.
Clique AQUI para ler a programação



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DUAS PERGUNTAS FREQÜENTES

1. Por que alguns pacientes são chamados de borderlines?
O termo "borderline" foi utilizado, inicialmente, para designar indivíduos que não teriam alcançado uma clara e sólida definição estrutural  (vários autores postularam, então, que os borderlines não podiam ser considerados nem como típicas estruturas neuróticas, nem como autênticas estruturas psicóticas). O indivíduo teria ficado no meio do caminho e, por isso, seria um borderline, um fronteiriço, um semi/meio-neurótico ou um semi/meio-psicótico, ou, ainda, um  "perverso" (ou um quase-"perverso").
Felizmente, esse ponto de vista foi redimensionado ao longo do tempo (embora o termo "borderline" tenha se popularizado) e alguns pesquisadores começaram a demonstrar (teórica e clinicamente) a existência de um "espaço" específico, próprio, distinto de outras categorias: o território borderline. Não uma neurose malfeita, nem um disfarce para uma autêntica psicose, nem uma psicopatia. Assim, ao menos para alguns psicopatologistas, o "território borderline" passou a ser reconhecido como uma "pátria", uma "estrutura", algo que possui uma "identidade". Pois, até então, era como se uma série de indivíduos, falando uma língua bastante estranha porém não de todo incompreensível, fossem ora confundidos com cidadãos de outros domínios, ora tidos como habitantes das fronteiras, mas nunca dignos de possuírem seu próprio "território".
Ao mesmo tempo alguns terapeutas perceberam o sério risco de o território borderline transformar-se em um "saco de gatos" que, por comodismo e falta de rigor na ação do diagnóstico, passaria a conter toda uma série de manifestações patológicas que pertencem, claramente, a outras categorias.
Atualmente, as últimas versões dos dois grandes sistemas classificatórios que se pretendem ateóricos — o DSM-4 e a CID-10 — utilizam a expressão “transtorno de personalidade borderline” para designar um  indivíduo que, anteriormente, fazia parte da “grande massa borderline”. Em outras palavras, o termo “borderline” foi, inicialmente, utilizado em um sentido amplo (com conseqüentes imprecisões e até mesmo abusos) e, agora, tem sido reservado a um tipo específico de distúrbio de conduta. 
Complicado, não? Pois é. Parece que essas questões terminológicas e conceituais são tão complexas quanto os próprios pacientes fronteiriços. E as dificuldades aumentam ainda mais, quando refletimos sobre os problemas que decorrem de se tentar construir sistemas pretensamente ateóricos  que, embora se mostrem descritivamente mais precisos a cada versão, pouco nos ajudam a entender a pessoa, o indivíduo borderline em sua ampla complexidade. 

2) Há alguma relação entre a cultura atual e o "comportamento borderline"?
Os psicopatologistas, desde Pinel, depararam-se com um inédito fenômeno: a violência cega, abrupta, desconcertante em pacientes que não apresentavam um quadro psicótico tradicional. Para aqueles alienistas não era novidade presenciar  manifestações de fúria assassina em indivíduos considerados loucos. Mas como compreender tais manifestações  em pessoas que mantinham preservadas suas funções de consciência e não apresentavam um dos principais sintomas da loucura, a desagregação progressiva da função de pensamento?  
Wilhelm Reich percebeu com clareza essa situação e descreveu-a em seu brilhante estudo sobre os "caráteres impulsivos". Esses indivíduos com altíssimo grau de impulsividade, descritos na década de 1920, não eram exatamente idênticos aos pacientes que hoje denominamos como "borderlines", mas Reich observou, naquelas pessoas, vários  fenômenos que encontramos atualmente em nossos consultórios. Naquele grupo de pacientes "as exigências impulsivas eram preponderantemente difusas, não eram dirigidas a objetos específicos e não estavam ligadas a situações determinadas".
Pinel, Reich e vários outros estudiosos ensinam-nos, portanto, que o nascimento do conceito de "fronteiriço" é indissociável da percepção de uma específica violência. Essa violência é muito singular e deve ser diferenciada do sadismo neurótico, do surto psicótico furioso e da raiva em sua expressão bioenergética. Sem essa diferenciação, a estrutura psicopatológica "fronteiriço" perde o sentido. 

Por outro lado, o conceito de "fronteiriço" está diretamente ligado à  "crise de valores" ou "crise ética" do século XX, e à simultânea  pressão do contato profundo. A teoria reichiana ensina que uma das principais funções do encouraçamento humano é, justamente, impedir o contato profundo. 
Em minha opinião
, o funcionamento fronteiriço está enraizado, em grande parte, nesse  contexto, ou seja: entre o incremento da pressão do contato profundo (um verdadeiro "pico" de pressão) e as dificuldades da couraça caractero-muscular de suportar esse "tranco". 
A "crise de valores" já era pressentida, no final do século XIX, por algumas pessoas mais "antenadas", como, por exemplo, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche e o pintor Vassili Kandinsky. No livro O Espiritual na Arte Kandinsky falá-nos com muita clareza daquele "espírito da época" que, nas primeiras décadas do século XX, encontra expressão em vários movimentos artísticos (e, sem dúvida, na vida quotidiana...), balançando e questionando radicalmente os rígidos padrões morais-caracteriais: “Batalha dos sons, equilíbrio perdido, princípios que desmoronam, rufar de tambores inesperados, grandes perguntas, buscas aparentemente despropositadas, impulsos aparentemente dilacerados e nostalgia, cadeias e ligações rompidas, várias reagrupando-se em uma só, contrastes e contradições —  eis nossa harmonia”. [O filme "La Dolce Vita", magistralmente dirigido por Fellini, é um ótimo material para se analisar a  passagem do funcionamento neurótico (linear/caracterial) para o funcionamento fronteiriço (impulsividade + depressividade + não-linearidade + vazio de contato)].
Fenomenologicamente pode-se dizer que o funcionamento borderline apresenta um conjunto de características indissociáveis: a específica violência cega à que me referi acima, a pressão do contato profundo, a patologia do vazio, a terrível exigência consigo mesmo e as dificuldades do encouraçamento caractero-muscular em lidar com essa situação.


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