Esta é a seção FAQ do Espaço ORG2. 

Na internet, a sigla FAQ (Frequently Asked Questions) é extensivamente utilizada 
para designar listas que apresentam as dúvidas mais comuns - e as respectivas respostas - 
sobre um determinado assunto .  

Abaixo, você encontrará uma relação com as questões mais freqüentes e interessantes que,
desde o lançamento de meu website, venho recebendo e respondendo por e-mail.
(Obviamente, não há qualquer menção à identidade 
dos que me enviaram as perguntas).

Para ler as perguntas e as respectivas respostas, clique nas categorias abaixo.

 


1- O QUE É A ENERGIA ORGONE? ESSA ENERGIA PODE SER OBSERVADA E COMPROVADA?
[RESPOSTA]

 2- REICH FOI INFLUENCIADOS PELAS FILOSOFIAS ORIENTAIS?
[
RESPOSTA]



 

1- Por que Reich não concordava com a teoria freudiana do impulso de morte? [RESPOSTA]

2 - O que é a orgonoterapia? No que ela pode ser útil? 
[RESPOSTA]



 1- PORQUE ALGUNS PACIENTES SÃO CHAMADOS DE BORDERLINES?
[RESPOSTA]

2- HÁ ALGUMA RELAÇÃO ENTRE A CULTURA ATUAL E O "COMPORTAMENTO BORDERLINE"? 
[RESPOSTA]


1 - O que é a Energia Orgone?
Para falar sobre a energia orgone e o significado científico de sua descoberta é preciso retomar, ainda que de forma sucinta, o singular trajeto cursado por Reich.
Wilhelm Reich (1897-1957) foi um médico e cientista natural que, por quase quarenta anos, desenvolveu uma ampla pesquisa sobre processos energéticos primários
Inicialmente (1919-1936) Reich amparou-se em distintos referenciais energéticos (o conceito freudiano de libido, a noção bergsoniana de elan vital etc.); interessado em pesquisar a bioenergia
, em 1936 ele próprio detectou, a partir de experimentos laboratoriais,  uma energia bio-eletétrica.
Ao longo de suas pesquisas Reich estabeleceu interfaces com várias áreas do conhecimento (psicanálise, sexologia, sociologia, biofísica, biogênese etc.), adotando direções de trabalho que culminaram na descoberta de um outro tipo de energia (distinta da energia bio-elétrica), que atua não apenas em seres humanos, mas também, em todo o cosmos. Essa "nova" e peculiar forma de energia foi experimentalmente comprovada por Reich no período 1939-1940 e, então, nomeada como energia orgone cósmica. Pormenorizadas pesquisas empreendidas por Reich revelaram que essa energia, em seu estado básico, é livre-de-massa e preenche o universo, embora  possa coligar-se à matéria.
Com a descoberta dessa "força" primordial, surge também, a  orgonomia: ciência que se dedica ao estudo das manifestações da energia orgone no micro e no macro cosmos, no vivo e no inanimado. 
[Contudo, vale lembrar que o nascimento da ciência orgonômica ampara-se em aproximadamente 20 anos de trabalho e que, após a descoberta do orgone, Reich continuou desenvolvendo a orgonomia por mais dezoito anos (até sua morte, em 1957).
Simultaneamente às pesquisas sobre os processos energético-vitais (que começam já em 1920, antes mesmo da descoberta do orgone) Reich elaborou: 
a) Três abordagens terapêuticas: a análise do caráter (1923-1934), a vegetoterapia caractero-analítica (1935-1939) e a orgonoterapia (1940-1957). 
b) Um nova metodologia de pesquisa
- o funcionalismo orgonômico -, metodologia essa que busca apresentar a lógica que rege os processos energéticos funcionais.  
c) Uma inédita técnica que ordena e estabelece relações entre os aspectos qualitativos e quantitativos das funções orgonóticas: a orgonometria
Preocupado em caracterizar as funções e a dinâmica da energia orgone, Reich realizou vários  estudos laboratoriais, descrevendo detalhadamente os fenômenos orgonóticos e suas expressões nos domínios do vivo e do inanimado. 
[Para abordar questões orgonômicas tais como a pulsação e a luminação orgonóticas, a direção de movimento da energia orgone, a sobre-excitação energética, o potencial orgonômico reverso etc.,  precisaríamos recorrer a uma ampla contextualização 
- tarefa essa que, obviamente, extrapola os objetivos dessa rápida resposta. Portanto, apresentarei, a seguir, apenas algumas descobertas centrais relativas ao funcionamento da energia orgone e remeterei o leitor, no final da resposta, à literatura técnica que, em parte, pode ser encontrada aqui mesmo, no Espaço ORG2].
Ao longo de dezoito anos de intensas pesquisas, a orgonomia de Reich, sempre fundamentada em um funcionalismo energético, chegou às seguintes conclusões: 
a) A energia orgone é observável e investigável em suas manifestações luminosas, térmicas e "motoras".  
b) Sob certas condições a energia orgone pode provocar reações vegetativas perceptíveis.
c) É possível acumular energia orgone e realizar importantes experimentos em um aparato que Reich batizou como ORAC ("orgone energy accumulator"). 
d) A energia orgone pode ser diferenciada empiricamente de outras formas de energia, tais como a energia eletromagnética e a energia nuclear.

Após a morte de Reich, vários grupos ao redor do mundo continuaram (e continuam) desenvolvendo a ciência orgonômica, trabalhando em promissoras áreas tais como a física-orgone, que se dedica à pesquisa das funções orgonóticas atmosféricas e cósmicas; a astrofísica-orgone, que estuda a relação entre a energia orgone e a criação e movimento dos corpos celestes; a biofísica-orgone, que aborda as manifestações da energia orgone nos seres vivos; e a orgonoterapia, que aplica as descobertas da orgonomia à prática terapêutica.


Consulte os livros A Função do Orgasmo, The Cancer Biopathy, Ether, God and Devil
Cosmic Superimposition
(para referências bibliográficas mais amplas, clique aqui)
Veja o artigos on-line Glossário de Termos Reichianos, Cronologia das Descobertas Científico-Naturais da Pesquisa de Wilhelm Reich e A Função Orgonome

 

2- Reich foi influenciado pelas filosofias orientais?
A obra de Reich não sofreu influências significativas das filosofias orientais.
A pesquisa reichiana está enraizada na ciência natural ocidental (mais precisamente, em uma abordagem científico-natural funcional). Ao longo de toda a sua obra Reich não poupou esforços para apresentar detalhadamente suas descobertas científicas e a lógica de investigação que o conduziu a tais descobertas (essa preocupação com o rigor científico pode ser facilmente observada, por exemplo, nas obras que tratam da descoberta dos bions, da dinâmica da energia orgone cósmica, da especificidade das funções orgonóticas, do método reichicano de pensamento e pesquisa etc.).
Porém, com essa cuidadosa atitude Reich não estava, apenas, seguindo as regras do exigente meio científico (que, mesmo assim, resolveu ignorá-lo...). Estava, também, diferenciando  seu trabalho de uma série de postulações místicas, metafísicas ou religiosas, proferidas por indivíduos que se referiam facilmente a uma "energia cósmica" mas pouco se preocupavam em demonstrar cientificamente a existência dessa energia. 
Podemos, obviamente, classificar Reich entre aqueles pesquisadores que acreditaram que a energia é anterior e prioritária em relação à matéria, ou que postularam que processos energéticos básicos dão origem à matéria [Na verdade, Reich investigou como a desintegração da matéria, sob certas condições, produz vesículas de energia (vide o Projeto Bions) e de que maneira a condensação de energia orgone, também em circunstâncias específicas, gera substâncias materiais (vide o Experimento XX e as pesquisas sobre a superposição cósmica de correntes orgonóticas)]. Mas não podemos esquecer o enorme salto dado por Reich:  ele não só acreditou em uma energia primária como também demonstrou cientificamente a sua existência. 
Isso não significa que é impossível estabelecer relações entre as funções orgonóticas e determinados conceitos filosóficos ou religiosos nativos do Ocidente ou do Oriente. Contudo, é preciso, aqui, uma boa dose de cautela. As descobertas da orgonomia tem sido submetidas a muitas comparações simplistas e imediatistas, verdadeiras "derrapagens" epistemológicas que em nada contribuem para o desenvolvimento da ciência orgonômica ou para a criação de autênticas interfaces entres os campos do saber. Um exemplo disso é a afirmação "o élan vital, o orgone e o prana são a mesma coisa". 
Embora esses três vocábulos evoquem registros de ordem energética, cada um deles pertence a um contexto específico, a uma abordagem específica. O conceito de "élan vital", tal qual Bergson o descreveu, de fato foi muito importante nos primórdios das pesquisas de Reich sobre uma energia biológica específica. Contudo, Reich insistiu várias vezes que era necessário diferenciar "teorização filosófica" e "descobertas científico-naturais". Com o fenômeno "orgone", dizia Reich, é possível gerar uma força motora, enquanto que, com o conceito de "élan vital", é impossível fazer um motor funcionar. 


Consulte os livros A Função do Orgasmo e Ether, God and Devil  
(para referências bibliográficas mais amplas, clique
aqui)
Problemas com a terminologia orgonômica? - Consulte nosso Glossário de Termos Reichianos
Problemas para se localizar na obra de Reich? - Consulte a Cronologia das Descobertas de Reich 


 


1- Por que Reich não concordava com a teoria freudiana do impulso de morte?
Em seu segundo dualismo dos impulsos, Freud contrapôs "impulsos de vida" e "impulsos de morte" (estou traduzindo, aqui, o vocábulo alemão trieb por "impulso"). Os impulsos de vida estariam a favor da coesão e conservação do organismo; os impulsos de morte, por sua vez, pressionariam para a descarga de toda a excitação, de tal maneira que o indivíduo tenderia a passar de um estado animado (vivo) para um estado inanimado (morto, sem excitação). Do pó viestes, ao pó voltarás....
Em um primeiro momento Reich concordou, assim como a maior parte dos psicanalistas de sua época, com a teoria do impulso de morte. Mas, tomando como referência sua experiência clínica, começou então a desconfiar desses "impulsos de morte" determinados ontogeneticamente. 
Reich resolveu conversar diretamente com Freud sobre suas dúvidas. Nesses encontros, relata-nos Reich, Freud era enfático ao afirmar que a teoria do impulso de morte era uma hipótese de trabalho, não exatamente um fato científico. Na opinião de Freud, Reich deveria continuar se preocupando com o empírico trabalho clínico.
Por volta de 1927/28 Reich começa a estruturar sua análise caracterial; e também passa a se incomodar com os psicanalistas que utilizavam a teoria do impulso de morte para justificar os mais variados fracassos terapêuticos. Reich foi participante e diretor do Seminário de Técnica Psicanalítica e sabia, por experiência própria, que muitas das dificuldades enfrentadas pelos psicanalistas deviam-se ao incipiente estágio de desenvolvimento da tecnologia terapêutica. No Seminário, Reich lutava pelo aprimoramento técnico, enquanto alguns psicanalistas (segundo Reich) escondiam-se atrás de postulações muito cômodas, tais como "esse paciente não se cura pois tem um forte impulso de morte", "o sentimento de culpa inconsciente desse paciente é muito intenso" etc. Também vale lembrar que Reich, com sua Análise do Caráter, pretendia desenvolver uma psicologia enraizada na ciência natural (em 1928 Reich separa-se teoricamente da teoria freudiana, embora só tenha sido expulso da Sociedade Psicanalítica em 1934). 
Para a abordagem científico-natural a questão energética é fundamental. E foi em bases clínicas, científico-naturais e energéticas que Reich procurou refutar a teoria freudiana do "impulso de morte". A experiência obtida com a análise do caráter, a eficácia desta terapêutica e, especialmente, a aplicação da metodologia caractero-analítica a um caso tipicamente masoquista conduziram Reich às seguintes descobertas: 
a) Os impulsos auto-destrutivos são resultado da supressão de camadas profundas do funcionamento bioenergético, e não de impulsos determinados ontogenticamente. 
b) As tendências auto-destrutivas estão enraizadas na couraça e possuem uma base profunda, a angústia orgástica. 
c) A angústia orgástica pode ser abordada clinicamente e interpretada como defesa à experiência orgástica-espontânea (que, ao se instalar, extrai energia do medo da entrega orgástica e dos conteúdos associados à esse forte temor); já a "tendência primária" à auto-destruição, além de questionável, era de difícil acesso à intervenção terapêutica. 
d) Para além do pânico da convulsão orgástica havia uma ética a favor da vida, que nada tinha de bárbara ou anti-social. À essa ética que nasce do movimento plasmático, energético e espontâneo Reich nomeou como "ética genital".
Reich nunca negou, obviamente, a existência de impulsos auto-destrutivos. A questão era: de onde se originam esses impulsos?
Ao lidar com essas questões teóricas e clínicas, Reich acabou propondo uma clara diferenciação entre  "impulsos primários" e  "impulsos secundários". 
Os impulsos primários nascem do núcleo bioenergético e sua expressão promove uma diminuição na tensão interna; os impulsos secundários, por sua vez, repetem-se continuamente e nunca produzem um alívio profundo. Para quem trabalha ou se fundamenta na pesquisa reichiana, essa diferenciação entre impulsos primários e secundários é, de fato, da maior importância.
Já na maturidade de sua obra científico-natural, na década de 1950, Reich "revisitou" a questão do impulso de morte, mas, agora, a partir de uma nova ótica, fundamentada na descoberta do DOR (“Deadly Or" Energia Orgone Mortal). "DOR" é uma função energética que expressa níveis de excitação da energia orgone que se tornam perigosos para o funcionamento do Vivo. Foi durante o projeto ORANUR (1947-1951) que Reich descobriu e caracterizou funcionalmente esse fenômeno orgonótico que atua no sentido oposto ao da manutenção e coesão do Vivo. Sob certas condições, da energia orgone cósmica (livre-de-massa) derivam-se um par de funções antitéticas: OR (energia orgone vital em direção à massa) e DOR (energia orgone paralisada ou altamente excitada em direção à massa).  
Contudo, tanto os impulsos secundários quando o DOR foram descobertos a partir de pesquisas concretas, demonstráveis e amparadas em critérios científico-naturais de investigação. Essas pesquisas revelaram, com clareza, que o DOR e a complexa rede de impulsos secundários não resultam de tendências ontogenéticas ou filogenéticas, mas expressam, isso sim, profundas alterações no funcionamento bio-orgonótico do indivíduo. Alterações essas, cujas raízes podem ser funcionalmente compreendidas e, até certo ponto, revertidas através de uma orgonoterapia. 


Consulte os livros
Análise do Caráter, Reich Fala de Freud e o artigo
Re-emergence of Freud´s "Death Instinct"
(revista Orgonomic Medicine, vol. II, num. I, 1956)
(para referências bibliográficas mais amplas, clique
aqui)


2 - O que é a orgonoterapia? No que ela pode ser útil?
A orgonoterapia é, simultaneamente:
a) Uma terapêutica que, por via direta, deriva-se de uma ciência criada por Reich (a Orgonomia), mas que, historicamente, beneficia-se das descobertas e desenvolvimentos de outras duas abordagens reichianas: a análise do caráter e a vegetoterapia.
b) Uma terapêutica que utiliza um específico método de investigação (o funcionalismo orgonômico) e uma específica técnica de "espelhamento" das funções energéticas (a orgonometria), ambos  desenvolvidos por Reich.
c) Uma terapêutica que, além do assim chamado "trabalho verbal", faz uso, também, de uma série de exercícios, de procedimentos que facilitam o acesso ao território somático e ao território perceptivo.
d) Uma terapêutica que tem um claro objetivo de cura: a retomada da pulsação orgonótica (quando, obviamente, isso for possível).
A orgonoterapia tem-se revelado altamente eficaz para lidar com disfunções tais como a depressão, os assim chamados distúrbios psicossomáticos, a síndrome do pânico, os estados confusionais, os transtornos de personalidade, os conflitos relacionais etc. Porém, é sempre bom lembrar que, em orgonoterapia, procura-se ver o indivíduo como um todo. Isso significa que o orgonoterapeuta não trabalha um sintoma específico, mas sim o funcionamento global do indivíduo, pois são as disfunções bioenergéticas do funcionamento global que dão origem às mais variadas patologias físicas e psíquicas.


Consulte os livros
Análise do Caráter, The Cancer Biopathy e Reich Fala de Freud  
(para referências bibliográficas mais amplas, clique
aqui)
Problemas com a terminologia orgonômica? - Consulte nosso Glossário de Termos Reichianos
Problemas para se localizar na obra de Reich? - Consulte a Cronologia das Descobertas de Reich 




1. Por que alguns pacientes são chamados de borderlines?
O termo "borderline" foi utilizado, inicialmente, para designar indivíduos que não teriam alcançado uma clara e sólida definição estrutural  (vários autores postularam, então, que os borderlines não podiam ser considerados nem como típicas estruturas neuróticas, nem como autênticas estruturas psicóticas). O indivíduo teria ficado no meio do caminho e, por isso, seria um borderline, um fronteiriço, um semi/meio-neurótico ou um semi/meio-psicótico, ou, ainda, um  "perverso" (ou um quase-"perverso").
Felizmente, esse ponto de vista foi redimensionado ao longo do tempo (embora o termo "borderline" tenha se popularizado) e alguns pesquisadores começaram a demonstrar (teórica e clinicamente) a existência de um "espaço" específico, próprio, distinto de outras categorias: o território borderline. Não uma neurose malfeita, nem um disfarce para uma autêntica psicose, nem uma psicopatia. Assim, ao menos para alguns psicopatologistas, o "território borderline" passou a ser reconhecido como uma "pátria", uma "estrutura", algo que possui uma "identidade". Pois, até então, era como se uma série de indivíduos, falando uma língua bastante estranha porém não de todo incompreensível, fossem ora confundidos com cidadãos de outros territórios, ora tidos como habitantes das fronteiras, mas nunca dignos de possuírem seu próprio "território".
Ao mesmo tempo alguns terapeutas perceberam o sério risco de o território borderline transformar-se em um "saco de gatos" que, por comodismo e falta de rigor na ação do diagnóstico, passaria a conter toda uma série de manifestações patológicas que pertencem, claramente, à outras categorias.
Atualmente, as últimas versões dos dois grandes sistemas classificatórios que se pretendem ateóricos — o DSM-4 e a CID-10 — utilizam a expressão “transtorno de personalidade borderline” para designar um  indivíduo que, anteriormente, fazia parte da “grande massa borderline”. Em outras palavras, o termo “borderline” foi, inicialmente, utilizado em um sentido amplo (com conseqüentes imprecisões e até mesmo abusos) e, agora, tem sido reservado a um tipo específico de distúrbio de conduta. 
Complicado, não? Pois é. Parece que essas questões terminológicas e conceituais são tão complexas quanto os próprios pacientes fronteiriços. E as dificuldades aumentam ainda mais, quando refletimos sobre os problemas que decorrem de se tentar construir sistemas pretensamente ateóricos  que, embora se mostrem descritivamente mais precisos a cada versão, pouco nos ajudam a entender a pessoa, o ser humano borderline em sua ampla complexidade. 


Acesse nossa página sobre estruturas borderlines
Leia o artigo Breve História dos "Fronteiriços"
Veja a programação do curso O Paciente Borderline

2) Há alguma relação entre a cultura atual e o "comportamento borderline"?
Os psicopatologistas, desde Pinel, depararam-se com um inédito fenômeno: a violência cega, abrupta, desconcertante em pacientes que não apresentavam um quadro psicótico tradicional. Para aqueles alienistas não era novidade presenciar  manifestações de fúria assassina em indivíduos considerados loucos. Mas como compreender tais manifestações  em pessoas que mantinham preservadas suas funções de consciência e não apresentavam um dos principais sintomas da loucura, a desagregação progressiva da função de pensamento?  
Wilhelm Reich percebeu com clareza essa situação e descreveu-a em seu brilhante estudo sobre os "caráteres impulsivos". Esses indivíduos com altíssimo grau de impulsividade, descritos na década de 1920, não eram exatamente idênticos aos pacientes que hoje denominamos como "borderlines", mas Reich observou, naquelas pessoas, vários  fenômenos que encontramos atualmente em nossos consultórios. Naquele grupo de pacientes "as exigências impulsivas eram preponderantemente difusas, não eram dirigidas a objetos específicos e não estavam ligadas a situações determinadas".
Pinel, Reich e vários outros estudiosos ensinam-nos, portanto, que o nascimento do conceito de "fronteiriço" é indissociável da percepção de uma específica violência. Essa violência é muito singular e deve ser diferenciada do sadismo neurótico, do surto psicótico furioso e da raiva em sua expressão bioenergética. Sem essa diferenciação, a estrutura psicopatológica "fronteiriço" perde o sentido. 

Por outro lado, o conceito de "fronteiriço" está diretamente ligado à "crise moral" ou "crise de valores" ou "crise ética" do século XX, e à simultânea  pressão do contato profundo. Em orgonoterapia entendemos que uma das principais funções do encouraçamento humano é, justamente, impedir o contato profundo. 
Em minha opinião
, o funcionamento fronteiriço está enraizado, em grande parte, nesse  contexto, ou seja: entre o incremento da pressão do contato profundo (um verdadeiro "pico" de pressão) e as dificuldades da couraça caractero-muscular de suportar esse "tranco". 
A "crise de valores" já era pressentida, no final do século XIX, por algumas pessoas mais "antenadas", como, por exemplo, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche e o pintor Vassili Kandinsky. No livro O Espiritual na Arte Kandinsky fala-nos com muita clareza daquele "espírito da época" que, nas primeiras décadas do século XX, encontra expressão em vários movimentos artísticos (e, sem dúvida, na vida quotidiana...), balançando e questionando radicalmente os rígidos padrões morais-caracteriais: “Batalha dos sons, equilíbrio perdido, princípios que desmoronam, rufar de tambores inesperados, grandes perguntas, buscas aparentemente despropositadas, impulsos aparentemente dilacerados e nostalgia, cadeias e ligações rompidas, várias reagrupando-se em uma só, contrastes e contradições —  eis nossa harmonia”. [O filme La Dolce Vita, magistralmente dirigido por Fellini, é um ótimo material para se analisar a  passagem do funcionamento neurótico (linear/caracterial) para o funcionamento fronteiriço (impulsividade + depressividade + não-linearidade + vazio de contato)].
Fenomenologicamente pode-se dizer que o funcionamento borderline apresenta um conjunto de características indissociáveis: a específica violência cega à que me referi acima, a pressão do contato profundo, a patologia do vazio, a terrível exigência consigo mesmo, as dificuldades do encouraçamento caractero-muscular em lidar com essa situação.



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