ORGANIZADOR : AILTON BEDANI


   Abaixo, o leitor encontrará uma coletânea de citações relativas ao funcionamento percepto-sensorial. Como se verá aqui, a percepção e a sensação vêm sendo abordadas, ao longo do tempo, dos mais diferentes pontos-de-vista. Da filosofia pré-socrática aos mais recentes trabalhos nos campos da Neuropsicologia e Orgonomia, passando pela Literatura e Teoria da Arte, o funcionamento percepto-sensorial nunca deixou de ser um tema intrigante, complexo e empolgante que, certamente, ainda merecerá inúmeras explorações.
 


Empédocles (495/490 a.C.—435/430 a.C.)

“[...] considera com teus sentidos como cada coisa é clara. Não dês maior confiança ao olhar do que a que corresponde ao ouvido; e não estimes o ruidoso ouvido acima das claras instruções da língua; e não recuses confiança às outras partes do teu corpo, pelas quais há acesso à inteligência.”

Empédocles, apud CHAUÍ, M. Introdução à História da Filosofia - Dos Pré-Socráticos a Aristóteles.

São Paulo: Ed. Brasiliense, 1994.

 

HERÁCLITO (~540 a.C.—470 a.C.) (comentário)

“Heráclito, devido ao fato de ainda acreditar que o homem dispunha de dois órgãos para o conhecimento da verdade — a sensação e a razão —, considerava [...] que, tratando-se destes dois órgãos, a sensação não é digna de confiança, ao passo que colocava a razão como critério. De fato, ele recusa a sensação, dizendo textualmente: os olhos e os ouvidos são maus testemunhos para as almas surdas à sua linguagem. O que é o mesmo que dizer que ‘é próprio das almas bárbaras atribuir fé aos sentidos desprovidos de razão’.”

Sexto Empírico (falecimento ca. 200), comentando o pensamento de Heráclito de Éfeso,

apud Les Écoles Présocratiques. Ed. Folio-Gallimard, 1991. (Tradução: Ailton Bedani)

 

PLATÃO (428/27-347 a.C.)

“[...] A visão, ou mesmo a audição, contém, para os homens, uma verdade qualquer?
[...] Se, entre as percepções do corpo, a visão e a audição não são nem claras nem exatas, imagine então as outras. Pois todas são, a meu ver, mais imperfeitas que aquelas duas.
[...] Em qual momento, diz Sócrates, a alma apreende a verdade? Ora, não resta dúvida de que, quando a alma se serve do corpo para tentar examinar alguma coisa, é totalmente enganada por ele [...]”

Platão, no Fédon, apud La Sensation, Ed. Flammarion, 1997. (Tradução: Ailton Bedani)

 

BLAKE (17571827)

“Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito.”

William Blake.

BLAKE, W. The Marriage of Heaven and Hell.

Disponível em: http://www2.kobe-c.ac.jp/~watanabe/blake/mhh.htm

(Obra originalmente escrita entre 1790 e 1793). (Tradução: Ailton Bedani)

 

NIETZSCHE (1844—1900)
“Pois pelo fato de agora buscarem imediatamente a razão, ou seja, ‘o que significa’, e não mais ‘o que é’, nossos sentidos ficaram algo embotados... Quanto mais capazes de pensar se tornam o olho e o ouvido, tanto mais se aproximam da fronteira em que se tornam insensíveis: o prazer é transferido para o cérebro, os próprios órgãos dos sentidos se tornam embotados e débeis, o simbólico toma cada vez mais o lugar daquilo que é — e assim chegamos à barbárie por esse caminho, tão seguramente como por qualquer outro”.
Friedrich Nietzsche.
NIETZSCHE, F. Humano, Demasiado Humano Um Livro para Espíritos Livres. Trad. Paulo C. Souza. São Paulo: Cia das Letras, 2000
(Versão final da obra publicada pelo autor em 1886).

 

PESSOA (1888-1935)

“A sensação é tudo, afirma Caeiro, e o pensamento é uma doença. Por sensação entende Caeiro a sensação das coisas tais quais são, sem acrescentar quaisquer elementos do pensamento pessoal, convenção, sentimento ou qualquer outro lugar da alma. [...] Caeiro tem uma disciplina: as coisas devem ser sentidas como são. [...] Caeiro não tem ética a não ser a simplicidade”.

Fernando Pessoa

PESSOA, F. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Lisboa: Ed. Ática, 1966

“Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz”
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa), “O guardador de rebanhos”, IX (publicado em 1925).
PESSOA, F. O guardador de rebanhos e outros poemas – Poesia completa de Alberto Caeiro. São Paulo: Landy Editora, 2006

 

“Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela”.
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa), “Poemas inconjuntos”
PESSOA, F. O guardador de rebanhos e outros poemas – Poesia completa de Alberto Caeiro. São Paulo: Landy Editora, 2006

REICH (1897—1957)

“No fundo, a natureza — dentro e fora de nós —, apenas é intelectualmente acessível por meio de nossas impressões sensoriais. As impressões sensoriais são, basicamente, sensações de órgão, ou, colocando de outra maneira, tateamos o mundo que nos rodeia por meio de movimentos de órgãos (=movimentos plasmáticos).”
Wilhelm Reich.

REICH, W. Ether, God and Devil/Cosmic Superimposition. New York:  Farrar, Straus and Giroux, 1973 (Trabalho original publicado em 1949). (Tradução: Ailton Bedani)

 

“Se nossas ‘impressões’ dos movimentos vitais refletem corretamente sua ‘expressão’; se as funções básicas da vida são idênticas em toda a matéria viva; se as sensações nascem das emoções; e se as emoções brotam de movimentos plasmáticos reais, então nossas impressões devem ser objetivamente corretas, contanto que, obviamente, nosso aparelho sensorial não esteja fragmentado, encouraçado ou alterado de algum outro modo.”

Wilhelm Reich.

REICH, W. Ether, God and Devil/Cosmic Superimposition. New York:  Farrar, Straus and Giroux, 1973 (Trabalho original publicado em 1949). (Tradução: Ailton Bedani)

 

“Se nos atentarmos para as conseqüências de nossos experimentos bio-elétricos, que revelaram que a quantidade de uma excitação biológica é idêntica à intensidade de prazer ou desprazer, então a excitação biológica e a percepção psíquica são funcionalmente idênticas. Por outro lado, não há razões suficientes para se postular que a matéria não-contrátil, não-viva percebe. É importante deixar de lado uma espiritualização geral da natureza, inclusive da natureza não-viva. No atual estágio de nossos conhecimentos acerca da percepção e da biofísica, faremos melhor em separar o vivo do não-vivo; o ser vivo como aquele que se caracteriza pela pulsação (alternância de expansão e contração) e percepção, o não-vivo como aquele que é rígido e desprovido de percepção. Onde não há pulsação, também não há percepção.

Wilhelm Reich.

REICH, W. Orgonotic Pulsation, Part One: The Differentiation of Orgone Energy from Electromagnetism - Presented in Talks with an Electrophysicist. Orgonomic Functionalism: A journal devoted to the work of Wilhelm Reich, Rangeley, Maine, v.3, 1991. (Trabalho originalmente escrito entre 1939 e 1944). (Tradução: Ailton Bedani)  

 

ARNHEIM (1904—2007)

“[...] o conjunto das operações cognitivas chamadas pensamento não são um privilégio das operações mentais localizadas acima e para além da percepção, mas sim, ingredientes essenciais da própria percepção [...]. Não vejo como eliminar a palavra ‘pensar’ do que ocorre na percepção. Não parece existir nenhum processo do pensar que, ao menos em princípio, não opere na percepção.”
Rudolf Arnheim.

Arnheim, R. El Pensamiento Visual. Editorial Universitaria de Buenos Aires, 1985

(Trabalho originalmente publicado em 1969). (Tradução: Ailton Bedani)

 

“Ao olhar um objeto, procuramos alcançá-lo. Como um dedo invisível movemo-nos através do espaço que nos cerca, dirigimo-nos aos lugares distantes aonde se encontram as coisas, tocamo-las, agarramo-las, examinamos suas superfícies, seguimos seus limites, exploramos sua textura. Esta é uma tarefa eminentemente ativa.”

Rudolf Arnheim.

Arnheim, R. El Pensamiento Visual. Editorial Universitaria de Buenos Aires, 1985

(Trabalho originalmente publicado em 1969). (Tradução: Ailton Bedani)

 

MERLEAU-PONTY (1908—1961)

“Mas, quando contemplo um objeto com a única preocupação de vê-lo existir e descobrir diante de mim as suas riquezas, então ele deixa de ser uma alusão a um tipo geral, e eu me apercebo de que cada percepção, e não apenas aquela dos espetáculos que descubro pela primeira vez, recomeça por sua própria conta o nascimento da inteligência e tem algo de uma invenção genial: para que eu reconheça a árvore como árvore, é preciso que, abaixo desta significação adquirida, o arranjo momentâneo do espetáculo sensível recomece, como no primeiro dia do mundo vegetal, a desenhar a idéia individual desta árvore.”
Maurice Merleau-Ponty

MERLEAU-PONTY, M-. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 1994 (Trabalho originalmente publicado em 1945).

 
“O mundo é aquilo que nós percebemos. [...] O mundo não é aquilo que eu penso, mas aquilo que eu vivo; eu estou aberto ao mundo, comunico-me indubitavelmente com ele, mas não o possuo, ele é inesgotável.”
Maurice Merleau-Ponty

MERLEAU-PONTY, M-. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 1994 (Trabalho originalmente publicado em 1945).

 

“O verdadeiro Cogito não substitui o próprio mundo pela significação mundo.”

Maurice Merleau-Ponty

MERLEAU-PONTY, M-. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 1994 (Trabalho originalmente publicado em 1945).

 

LURIA (1902—1977)

“A moderna psicologia da percepção [...] considera a percepção como um processo ativo da busca da correspondente informação, distinção das características essenciais de um objeto, comparação das características entre si, criação de uma hipótese apropriada e, depois, comparação desta hipótese como os dados originais.”

Alexander Romanovich Luria.

LURIA, A. R. El Cerebro en Acción. Barcelona: Editorial Fontanella, 1979. (Tradução: Ailton Bedani)

 

CLARICE LISPECTOR (1920—1977)
“[...] na pintura como na escritura procuro ver estritamente no momento em que vejo e não ver através da memória de ter visto num instante passado. O instante é este. O instante é de uma iminência que me tira o fôlego. O instante é em si mesmo iminente. Ao mesmo tempo que eu o vivo, lanço-me na sua passagem para outro instante”.
Clarice Lispector
LISPECTOR, C. Água viva. Rio de Janeiro: F. Alves, l993

“O ato de ver é inefável. E às vezes o que é visto também é inefável. E é assim certa espécie de pensar-sentir que chamarei de ‘liberdade’, só para lhe dar um nome”.
Clarice Lispector
LISPECTOR, C. Água viva. Rio de Janeiro: F. Alves, l993

“Não se compreende música: ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro”.
Clarice Lispector
LISPECTOR, C. Água viva. Rio de Janeiro: F. Alves, l993
 

Publicado em: 16.03.01  Atualização: 26.06.08

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