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REICH: TEORIA DA VIDA
E TEORIA DO
CONHECIMENTO
(1)
Ailton Bedani (2)
Ao longo de sua
obra, Wilhelm Reich (1897-1957) estabeleceu
interfaces com várias áreas do conhecimento:
Sexologia, Psicanálise, Epistemologia, Pedagogia,
Sociologia, Biologia, Física, Meteorologia. Mais do
que um adepto do ecletismo, ele se dedicou
especialmente a investigar, em diversos campos, as
manifestações de um singular processo energético. Na
maturidade de seu trabalho o autor comentou que
havia se dedicado "ao
campo da Psiquiatria como um cientista natural. Esse
interesse
foi ditado,
em primeiro lugar,
pela questão
da energia.
Já era assim em 1919”.(3)
Em
1919, quando
ainda
cursava medicina na
Universidade
de Viena, Reich deu início
às suas pesquisas.
A “energética”
e os fundamentos
epistemológicos da produção
científica são os temas que inauguraram
sua
obra e acabaram norteando
toda sua produção. O jovem universitário suspeitava “que
a energia
funciona ANTES
de qualquer
massa;
que não
é a matéria,
mas sim, a energia que é primária;
que a massa precisa ser
derivada, de alguma forma,
da energia”.(4)
Apaixonado, também,
por Biologia, ele
colocava a si
mesmo,
todo o tempo,
a intrigante
questão “o que é a vida?”.
No decorrer de seus diversificados
estudos extracurriculares, identificou-se com concepções
filosóficas que se recusavam a
assemelhar o
funcionamento
do vivo ao
das máquinas
e simpatizou com
teorias que especulavam sobre uma energia biológica específica;
acreditava, no entanto, que tais formulações precisavam alcançar
status
científico-natural. Convicto
que a elaboração científica
é indissociável
da crítica
epistemológica, ele
adotou, desde o início
de suas
investigações, uma
diretriz professada pelo
filósofo Henri Bergson: teoria
da vida e teoria
do conhecimento
são
“inseparáveis
uma da outra”.(5)
Formalmente
aceito, em 1920, como membro da Sociedade Psicanalítica, Reich, por
quatorze anos,
procurou extrair conseqüências teóricas, clínicas, pedagógicas e
políticas
da teoria
freudiana
da libido.
Empreendendo, no âmbito do movimento psicanalítico, uma
série
de pesquisas
originais,
ele
elaborou, no período
1922-1926, a teoria
da “potência
orgástica”, teoria
essa que se tornou o eixo
de sua
obra: “potência
orgástica é a capacidade
de se entregar ao fluxo da energia biológica, sem
quaisquer inibições;
a capacidade de descarregar completamente, por meio de
convulsões
involuntárias e prazerosas do
corpo, a excitação sexual acumulada”.(6)
Entre
1927 e 1934, Reich desenvolveu uma nova metodologia terapêutica (a
Análise
do Caráter) e
procurou, também, estabelecer conexões entre Psicanálise
e Marxismo.
Apoiando-se na concepção freudiana
de sexualidade,
na noção
de potência
orgástica e, também, no materialismo histórico e dialético de Marx e Engels, o
autor agregou
esse arsenal teórico-epistemológico a um convívio direto e intenso com a população
economicamente desfavorecida. Atuando
inicialmente em Viena (1927-1930) e depois em
Berlim (1930-1933), ele
se esforçou em demonstrar, por meio de
publicações e de um
amplo trabalho social,
que política
e sexualidade
são domínios mutuamente
dependentes.
Expulso,
em
1933, do Partido
Comunista
e excluído,
no ano seguinte, da Sociedade Psicanalítica, Reich, ameaçado pelo nazismo, procurou
guarida em vários locais
e acabou se exilando, em
1934, na Noruega. Nesse país, sua pesquisa
pôde
alcançar dimensão
laboratorial. Ingressando no
campo da Biofísica, o
autor investigou o “comportamento” de correntes
bio-elétricas que
se movem coligadas aos
estados
emocionais
do indivíduo;
realizando experimentos na área
da Biogênese, identificou
vesículas que expressam
estágios
intermediários entre
o inorgânico e o orgânico.
Além de ampliar sua metodologia terapêutica (em
1935 surge a Vegetoterapia Caractero-Analítica) e
aprimorar seus estudos sobre a lógica que rege o
funcionamento
do vivo,
Reich detectou, em 1939, uma energia que atua em estratos biológicos
profundos.
Logo em seguida seus experimentos levaram-no a
crer que aquela
singular energia, inicialmente observada em seres vivos,
fazia-se
presente, também,
na atmosfera.
Nomeou, então, essa força básica como
“energia
orgone cósmica” e fundou um novo ramo de pesquisas,
a Orgonomia.
Vivendo nos
EUA desde
1939, Reich dedicou-se, por quase duas décadas, a realizar criteriosos experimentos
e a descrever,
em vasta literatura técnica, as
manifestações
da energia
orgone nos domínios do vivo
e do não-vivo, no micro e
macrocosmos; preocupou-se,
igualmente, em mapear a específica dinâmica
dos fenômenos
orgonóticos e em integrar Orgonomia e Matemática. Suas pesquisas conduziram-no, em seu período norte-americano,
a áreas
tão
distintas como
a Oncologia
e a Meteorologia,
posto que certas disfunções da
energia
orgone podem ser
observadas, no entendimento
do autor,
tanto
no câncer
quanto nos processos
de desertificação do planeta. Embrenhando-se
em diversos campos
de estudos (Física-Orgone, Biofísica-Orgone,
Orgonoterapia, Pedagogia Orgonômica, Orgonometria), o pesquisador
continuou, no entanto,
denunciando os sistemas ideológicos que
negam a vida
e anestesiam, desde a infância,
as capacidades
críticas
e as forças
emocionais-sexuais.
Sistematicamente monitorado pelo
Federal Bureau of Investigation e,
desde o final
da década de
1940, vítima
de calúnias
publicadas na imprensa e em revistas científicas,
Reich passou a ser investigado,
também,
por outro órgão governamental, a Food and Drug
Administration. Nos anos 50 o cientista acompanhou de perto
a paranóica era
macartista, além de se ver envolvido em um intrincado processo judicial, que
resultou em
sua
prisão em
1957. Nesse mesmo ano ele faleceu, vítima
de ataque
cardíaco,
em um presídio
norte-americano.
Meio
século
se passaram
desde
a morte de Reich,
mas ainda são poucos
os estudos que procederam a uma reavaliação criteriosa
de sua obra.
Esse fato chama atenção, pois
a pesquisa
reichiana oferece, a nosso ver, ferramentas ímpares para refletirmos sobre nossa explosiva crise social
e seus
concomitantes problemas éticos
e ecológicos.
1- Artigo
publicado no Jornal da Unesp,
Junho/2007– Ano XXI – nº 223. Também disponível
em
http://www.unesp.br/aci/jornal/223/supled.php
2 - Psicólogo, Psicoterapeuta da Corporalidade,
Mestre em Psicologia pelo Instituto de
Psicologia da Universidade de São Paulo,
Coordenador
Pedagógico do Programa de Formação em Abordagem
Clínica Reichiana e Gerenciador deste Espaço
ORG2.
3-
REICH, W. Man’s roots in nature.
Orgonomic Functionalism: A journal
devoted to the work of Wilhelm Reich,
Rangeley, Maine, v.2, 1990.
4-
REICH, W. Orgonomic functionalism in
non-living nature. Orgonomic
Functionalism: A journal devoted to the
work of Wilhelm Reich, Rangeley, Maine, v.6,
1996.
5-
Bergson, H.
L’evolution créatrice. In: Henri Bergson
- Oeuvres. Paris: Presses Universitaires
de France, 1984.
6-
REICH, W. The function of the orgasm: Volume 1 of the discovery of the orgone — Sex-economic
problems of biological energy. Great
Britain: Condor
Book, 1989.
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